Tarde de domingo...

Tarde de domingo...

Sérgio Cabral

Tarde de domingo, o Café Teatro Casa Grande (mais tarde Teatro Casa Grande) estava superlotado. Era uma das sessões do Clube de Jazz e Bossa que, naquele dia, homenagearia Jacob do Bandolim. Na chegada, ao olhar a cara do público, Jacob não gostou:

- Só tem garoto. Eles não me conhecem. Não vai dar.

E voltou para o seu fusca, de onde somente saiu depois de insistentes apelos. Entrou pela porta lateral que dava acesso ao palco, foi anunciado e dirigiu-se para o microfone. Deu uma nova olhada no público e, acompanhado pelo conjunto Época de Ouro, começou a tocar Noites Cariocas, de sua autoria. A platéia, que não o conhecia, surpeendeu-se com o extraordinário instrumentista e homenageou-o, inicialmente, com um respeitoso silêncio e, ao terminar a música, com uma explosão de palmas. Quando executou Carinhoso, o público não esperou o fim da música para aplaudir. Era visível a emoção de Jacob. Depois, outro clássico de Pixinguinha, Lamento. Que musicalidade, que capacidade de improviso, que domínio do instrumento!

Sérgio Cabral ao computador
Sérgio Cabral

- É um virtuose! - gritou alguém, sendo acompanhado por palmas de aprovação e por pedidos de silêncio. Os olhos de Jacob estavam cheios d´água, mas ele resistiu e tocou até o fim, quando o público inteiro estava de pé, aplaudindo e gritando. Os aplausos prosseguiram e Jacob resolveu encerrar ali sua apresentação. Agradeceu, sem jeito, virou de costas para a platéia e dirigiu-se aos bastidores, onde parou e caiu. Era março de 1967. Primeiro enfarte de Jacob Bittencourt, o Jacob do Bandolim.

Quem conheceu Jacob apenas pelos discos não pode imaginar que aquele instrumentista de palhetas malandras, inesperadas e bem-humoradas fosse, de um lado, um homem extremamente tenso, organizadíssimo, exigente em tudo e responsável até por manifestações de autoritarismo quando se entregava ao trabalho. Considerava-se um tradicionalista, razão pela qual gostava de tocar para um público identificado com ele. Tinha horror aos "moderninhos", principalmente daqueles que lhe sugeriam uma "reformulação" do choro. A emoção que tomou conta dele na Casa Grande foi decorrente da descoberta surpreendente de que os jovens da Zona Sul adoraram a sua música. Jacob não sabia, tradicionalista convicto, que o moderno na nossa música era ele, desde que a modernidade fosse associada à criatividade. Que instrumentista brasileiro criou tanto, improvisou com tanta riqueza? Passava 10, 15, 20 minutos fazendo variações em torno de um tema, sem repetir nenhuma delas... O cantor Sílvio Silveira, crooner de orquestra em Paris, contou-me que, certa vez, o grande saxofonista francês de jazz, Claude Lutter, chamou a sua atenção:

- Vocês brasileiros, são curiosos. Contam com o maior instrumentista do mundo e não falam nada.

- A quem você está se referindo?

- A Jacob do Bandolim - respondeu Lutter.

No famoso show com Elizete Cardoso e Zimbo Trio, no Teatro João Caetano, em fevereiro de 1968, o bandolinista arrancou aplausos e pedidos de bis (que foram atendidos) por causa de sua interpretação de Chega de Saudade, juntamente com o Zimbo Trio. O clássico de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes recebeu, naquela noite, várias versões propostas por Jacob. Uma delas foi incorporada pelo próprio Tom Jobim, a partir de uma gravação de Chega de Saudade feita em 1987. Não era, porém, um homem de uma só faceta. Havia um Jacob brincalhão, bem-humorado e piadista que surgia principalmente nos saraus que promovia em sua casa, em Jacarepaguá. Fui testemunha de uma das suas manifestações bem-humoradas num show realizado em 1961, na Universidade Mackenzie, em São Paulo, onde solou e participou do acompanhamento musical dos cantores Sílvio Caldas, Ciro Monteiro e Araci de Almeida, e outros que ali se apresentaram. Sérgio Porto, que atuou como apresentador, estava muito nervoso. Num certo momento do show, ele perguntou a Jacob se estava se saindo bem.

- Está ótimo. Para César de Alencar, só está faltando a burrice - tranquilizou Jacob.

Clicky Web Analytics