Rossini Ferreira (26/03/2001+)

ROSSINI FERREIRA

O bandolim foi um instrumento venerado na Itália, cujos modelos abaulados se tornaram símbolos da música napolitana. No Brasil, teve uma adaptação oportuna num ritmo cujas raízes foram fincadas ainda no século XIX e viria a se tornar um dos mais populares do país: o choro. Não é à toa que, sendo o Recife reconhecido como uma das 'sedes' do choro, a Veneza Brasileira não renega a herança itálica. Aqui estão alguns dos melhores bandolinistas da história da música brasileira, como Luperce Miranda e Rossini Ferreira.

Aos 80 anos de idade, Rossini Ferreira é autor de uma obra invejável, grande parte desta inédita em gravação e publicação, e que merece maior atenção das gravadoras e editoras. A exemplo da maioria dos chorões de sua geração, o bandolinista teve que dividir as atividades de músico autodidata com profissões fora do perímetro artístico. Ainda assim, 'aposentado', mostrou-se aberto a novos desafios, como o de aprender a ler música e lecionar, já septuagenário.

Filho do clarinetista Antônio Sabino, mestre de banda de música em municípios do interior pernambucano - Timbaúba e Nazaré da Mata - foi pegando o bandolim da irmã mais velha que o músico conheceu as primeiras notas do instrumento. Ciumenta, "Tita", como era chamada, tinha medo que o pequeno Rossini quebrasse as cordas. Ele, no entanto, era insistente e, ainda criança, tirava os primeiros sons, "por intuição", como gosta de dizer.

Quando estava com 12 anos, o jovem bandolinista se mudou com a família de Nazaré da Mata para o Recife, para morar no bairro do Arruda, próximo de onde se localiza hoje o estádio do Santa Cruz Futebol Clube. Ele lembra que por volta dos 17 anos formou o primeiro grupo, um conjunto vocal que imitava o Bando da Lua (que acompanhava Carmen Miranda). O formato era o sucesso nos anos 30 e. No Bando Pernambucano, até o próprio Rossini Ferreira cantava o repertório basicamente de sambas.

ÉPOCA DE OURO - Após o período dos grupos vocais, com a ascensão do rádio como meio de comunicação de massa no país, emergiram os chamados grupos 'regionais'. Numa época que nem se falava em playback, os programas aconteciam nas rádios com música ao vivo, interpretada por grupos que tinham na figura de um dos instrumentistas - geralmente o mais performático dos solistas - a liderança do regional. "Não tinha essa folga que tem hoje", relembra o bandolinista. "Era na 'natureza': errou, estava errado".

Segundo conta o próprio Rossini, na Rádio Clube de Pernambuco - a antiga PRA-8 - o som do regional e da orquestra da emissora era ditado pelo flautista Felinho. Quando este se afastou dos grupos, Rossini deixou o Bando Pernambucano para se integrar ao cast da rádio. O músico não consegue lembrar o repertório, mas se orgulha ao recordar que tocava na PRA-8 contratado como funcionário. "E de carteira assinada", acrescenta.

A atividade de músico, no entanto, começava somente a partir das 20h. Durante o dia, Rossini Ferreira era o funcionário do Setor de Carteira de Resseguro da empresa Seguradora Indústria e Comércio. "Naquele tempo não se ganhava dinheiro como músico", explica. "Jacob (do Bandolim) mesmo, era escrivão em cartório". A empresa na qual Rossini trabalhava ficava localizada no hoje decadente Edifício Seguradora, na Praça da Independência, Centro do Recife. A vida, contudo, não se tornava cansativa por causa disso. "Era tranqüilo", afirma.

O Rio de Janeiro era o destino certo

Apesar do sucesso de Rossini Ferreira na PRA-8, foi fora de Pernambuco onde surgiram as melhores oportunidades para o bandolinista. Em especial no Rio de Janeiro, cidade que o recebeu literalmente de braços abertos, na figura de outro mestre do instrumento, o maior nome de projeção nacional daquela época: Jacob do Bandolim.

Rossini já havia estado no Rio a trabalho, pela seguradora. Mas foi em outubro de 1959 que surgiu a primeira oportunidade de, junto com outros talentos musicais da região, conquistar musicalmente a capital fluminense.

Há muito que Pernambuco era grande celeiro de violonistas. Daqui foram projetados nomes de reconhecimento nacional, como Quincas Laranjeira e João Pernambuco. Contemporâneo de Rossini, João Dias reuniu outros três violonistas - Zé do Carmo, Dona Ceça e um certo Canhoto da Paraíba -, além do bandolinista, para uma viagem até o Rio, a bordo de um Jeep Willys 51.

Junto com a trupe, ia ainda a esposa de Zé do Carmo, Nelita. A mulher de Rossini, Maria Rita, foi a única a seguir de avião, devido a uma cirurgia de apendicite. O destino era apenas um: a casa de Jacob do Bandolim, com quem os músicos pernambucanos tinham contato apenas por correspondência e pelas músicas que ouviam em gravações. "Eu não compunha quase nada, e tocava as músicas dele todas", diz Rossini.

Até o Rio, contudo, não foi fácil. "A estrada não tinha asfalto", recorda o músico. "A gente demorou uns sete ou oito dias, mais ou menos. Mas era uma farra só", conta. "Onde a gente chegava, hospedava-se em qualquer lugar, jantava e ia tocar". Nessa época, Jacob era referência para todos os bandolinistas do país. "Quando chegamos lá, a rua estava toda embandeirada. Foi uma recepção maravilhosa", diz.

MESTRES - Rossini recorda bem que na noite escolhida para a 'reunião' - um dos famosos saraus da casa de Jacob - lá estavam figuras expressivas da música brasileira: Pixinguinha, Radamés Gnattali, a pianista "Tia" Amélia, César (pai de Paulinho da Viola) e outros músicos que ele já nem lembra mais. "Era muita gente". O grupo pernambucano retribuiu a acolhida com um programa centrado nas músicas de Jacob.

Os fatos narrados pelo veterano bandolinista bate em precisão conforme narrados no livro Choro: do Quintal ao Municipal (Editora 34), escrito pelo cavaquinista Henrique Cazes, e que conta a história desse ritmo desde as origens até os tempos atuais. Soluciona inclusive a dúvida sobre um caso ocorrido na residência de Jacob, naquela ocasião.

Dizia-se muito que o maestro Radamés, impressionado com a virtuosidade de Canhoto, teria arremessado um copo de cerveja para o alto. A mancha no teto, Jacob jamais teria deixado que fosse removida. Segundo conta Cazes, Radamés se enfurecia ao ser citado como autor do "vexame". Rossini Ferreira, presente naquele momento lembra com exatidão. "Foi Pixinguinha".

Apesar do sufoco de ida e volta, que custou a Rossini um bandolim, caído da "caçamba" - uma espécie de reboque que carregava as malas do grupo - no meio da estrada, a viagem ao Rio de Janeiro foi um marco na carreira do grupo. "Foi aí que eles ficaram conhecidos pela mídia", conta Maria Rita.

Compositor só aprendeu a ler partitura aos 70

De volta ao Recife, Rossini Ferreira retomou o trabalho na Seguradora Indústria e Comércio e na Rádio Clube. Vieram os anos 60 e com eles a propagação do disco de vinil, a ascensão gradual da TV, e o rádio, no formato que projetou os regionais, iniciou seu retrocesso.

Em 1969, dez anos após a grande viagem para o Rio de Janeiro, Rossini foi solicitado pela empresa em que trabalhava para retornar àquela cidade. "O escritório da seguradora estava precisando de um gerente lá, e me mandou para passar uns dias", lembra. "Não sei que `uns dias' foram esses que fui ficando 17 ou 18 anos". Ao mesmo tempo, a PRA-8 já havia indenizado todo o seu regional.

O músico pernambucano acabou ficando no Rio. "Um dia eu estava no Banco Nacional do Norte, na Rua do Ouvidor, quando Adoniran (violonista 7 cordas) me reconheceu e disse: 'Rapaz, há tempos estamos atrás de você. Nós temos um conjunto e queríamos que você fizesse parte dele' ", conta. O grupo era o Amigos do Choro. "Eu fui lá, fiz uma visita e fiquei", relata. "Foi aí que eu comecei a compor. Antes, havia composto apenas "umas duas ou três músicas".

A carreira de Rossini Ferreira reacendeu e ele ganhou o Brasil. Literalmente. Eram os anos 70, época em que o choro tornava a ter grande destaque no cenário nacional. Na cidade que abrigou o bandolinista, aconteceu em 1977 o I Concurso de Conjuntos de Choro. Não teve para ninguém: o Amigos do Choro ficou em primeiro lugar e, como melhor composição, foi escolhida a inédita Recado, de Rossini Ferreira.

No mesmo ano, em São Paulo, houve o maior de todos os concursos do gênero: o I Festival Nacional do Choro: Brasileirinho, promovido pela Bandeirantes. E mais uma vez se sagrou campeã uma música de Rossini interpretada pelo grupo: Ansiedade. O conjunto gravou ainda um LP com 12 faixas (sete delas de Rossini), ainda inédito em CD.

ELE VOLTA NOVAMENTE - No Rio de Janeiro, Rossini Ferreira viveu o ápice da carreira. Segundo conta, depois que se aposentou pela seguradora, não pretendia mais voltar ao Recife. No meio musical carioca fez muitas amizades: Dino Sete Cordas, Canhoto (do Cavaquinho, já falecido), Orlando Silveira e Dr. Menna (que dá nome a uma de suas composições), são algumas delas.

Algum tempo mais tarde, aos 70 anos de idade, o músico recebeu duas propostas tentadoras: entrar para a Orquestra de Cordas Dedilhadas e lecionar no Conservatório Pernambucano de Música (CPM). Músico `de ouvido' desde criança, Rossini teve a oportunidade de também aprender a ler partitura. Por haver encarado essas duas chances, o músico hoje já compõe escrevendo, evitando assim perder as composições que idealiza "de repente" e "aos pedacinhos", como define seu processo criativo. "Antes eu esquecia muita coisa".

AINDA AFIADO - No próximo dia 7 de julho, Rossini Ferreira completa 81 anos. Idade que a esposa, Maria Rita, faz questão de dizer que ele não aparenta ter. Mas o ressentimento que o bandolinista não tem em relação à trajetória da própria carreira, deposita nos lapsos de memória e na lentidão do raciocínio. "Eu queria parecer e não ter essa idade", afirma.

Aparentemente um pouco magoado com a perda da agilidade, o compositor toca apenas em casa. "Tenho preguiça de sair. Quando eu quero me ouvir, aí eu coloco..." (aponta para o CD player, aos risos). "A maior parte do tempo eu fico em casa, vendo televisão e ouvindo uma 'musicazinha' ", diz. "Vou no Bompreço, faço umas 'comprazinhas', vou ao shopping... uma vida de aposentado. É muito chão...", afirma, com um olhar distante.

De vez em quando, o veterano instrumentista é convidado pelo músico Bozó (violão 7 cordas) e o irmão Luca para tocarem juntos. "Raramente eu vou", afirma. A última vez, segundo ele, faz uns dois meses. No último dia 9 Rossini pretendia fazer uma visita a Canhoto da Paraíba, amigo de mais de meio século, que vive no Interior de Pernambuco, e que está impossibilitado de tocar. "Mas o Luca viajou e tivemos que adiar", explica.

Obras do compositor permanecem inéditas

Além do álbum do Amigos do Choro, que permanece inédito em tecnologia digital, Rossini Ferreira possui um CD lançado pela Kuarup Discos, Um Alô Para o Six. O álbum reúne 14 faixas de um LP gravado no Rio, em 1994, mais sete músicas de 1997, produzidas pelo cavaquinista brasiliense Francisco de Assis (o 'Six'). A faixa de nº 8, Dr. Menna, integra também outra gravação do catálogo da gravadora.

No disco Os Bambas do Bandolim, Rossini está bem acompanhado de grandes nomes do instrumento de todos os tempos, como Deo Rian e Joel Nascimento. No mesmo álbum, Bruno Rian (filho de Deo), interpreta Capibaribe, do pernambucano. "Eu tenho também várias composições gravadas por outros músicos", lembra. Duas delas se encontram no CD Sentimentos, do Conjunto Pernambucano de Choro: Inspirações (junto com o também bandolinista Adalberto) e Maxixe para Rossini (parceria com Marco César, bandolinista do grupo).

Boa parte das composições de Rossini Ferreira, no entanto, permanece inédita. É necessário que alguém - músico ou produtor, quem seja (contanto que tenha boa fé) - se interesse em ajudar o músico a organizar o material, que poderia gerar coletâneas, tributos e até (o mais interessante) um trabalho inédito interpretado pelo próprio Rossini.

O bandolinista mantém ainda em seu acervo um álbum com composições (atenção Almir Chediak e editora Lumiar!), organizado pelo músico paraibano e admirador do trabalho de Rossini, Wilson Maria dos Santos. 64 Partituras de Músicas para Bandolim (choros, valsas, frevos, etc.), somente com músicas de Rossini, foi elaborado com ajuda do software de computador Encore_4, e mereceria ser publicado.

Texto de Jornal do Commercio, de 17/01/00

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