O sucessor de Jacob do Bandolim

por Fernando do Bandolim

O Fulano do Bandolim é o legítimo sucessor de Jacob do Bandolim. Quem nunca ouviu esta frase nos últimos trinta anos? Déo Rian, Isaías, Joel Nascimento, Ronaldo, Jorge Cardoso, enfim, ao longo destes anos, todo grande bandolinista, numa ou noutra ocasião, recebeu tal adjetivação. Na verdade, a morte de Jacob deixou tamanha lacuna (ou será presença?) no mundo do choro que, não apenas os chorões, mas também aquela reduzida fração da mídia que dedica espaço ao choro, anseiam por substituí-lo. Mas voltemos à frase e assinalemos alguns elementos nela presente.

i) há um reconhecimento humano de que Jacob do Bandolim foi um gênio (daqueles poucos com gê maiúsculo);

ii) a morte de Jacob não diluiu sua presença no choro. Ele está mais presente nas rodas de choro do que nunca. Dois exemplos, de muitos que poderíamos apontar, corroboram tal afirmação:

1. ouvir Lamentos ou Ingênuo numa roda de choro é ouvir o arranjo imortalizado por Jacob e,

2. outrora, ou seja, antes de Jacob do Bandolim, não havia tantos bandolinistas no país; hoje, após a passagem do furacão Jacob do Bandolim, convivemos, seguramente, com o fato do bandolim ser, disparado, o principal instrumento de solo no ambiente chorão. Assim, se insistem em buscar-lhe um sucessor é porque sua presença, ainda que como uma sombra que paira sobre todos nós, é muito intensa;

iii) quando se afirma que Fulano do Bandolim pode ser o sucessor de Jacob, obviamente se está reconhecendo nele, no mínimo, um músico, um bandolinista de raro talento.

Podemos, agora, abordar a seguinte questão: já existe um sucessor de Jacob do Bandolim? A resposta a esta pergunta só pode ser negativa, o que não significa desconsiderar o imenso talento de Isaías, Déo e todos que, ao longo dos anos têm sido rotulados de "sucessores de Jacob". A resposta é negativa por dois motivos: primeiro que, Gênio não é sucedido, mas seguido. Vejam o caso do que Beethoven significou para todos os compositores românticos que lhe foram posteriores, p.ex. Schumann, Brahms, etc. Eles não construíram uma obra revolucionária em relação à monumental obra de Beethoven, mas como que seguiram pela trilha inaugurada, deixada a eles por Beethoven. Aliás, isto já é suficiente para mostrar que, não há desabono em se seguir os passos de alguém que reconhecemos como dotado de olhar e sensibilidade mais profundo que o nosso.

Segundo, aquele que não segue o caminho indicado pelo Gênio, se tiver um talento muito grande, talvez consiga abrir uma estrada nova, inusitada e impô-la à comunidade musical (sim, impor, porque é difícil superar o que está sedimentado). Nesta segunda hipótese, teremos um sucessor de Jacob, mas não no sentido de alguém que dê prosseguimento à sua obra com o mesmo brilho pessoal que ele imprimiu, mas no sentido de tirá-lo da posição central do mundo do bandolim, tal como ele o fez com relação a Luperce Miranda.

Ah!, quem tiver dúvidas sobre a reverência que nos anos trinta se tinha pela obra de Luperce, leia o que Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal, fala sobre Luperce.

Fernando do Bandolim é bandolinista do grupo Choro de Varanda.

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