O Bandolim e o Brasil

por Artur da Távola

O bandolim aparece no Brasil, trazido de Portugal, por volta de fins do século XVIII. Um século antes, aproximadamente, já era usado, em Veneza (onde o instrumento disseminou-se), por Vivaldi, ousado experimentador de novas sonoridades para a sua época. Não se sabe ao certo como vem para o choro, mas no conjunto dessa modalidade de música, o bandolim aparece aos poucos. Inicialmente veio o cavaquinho, instrumento de execuçào mais simples e sonoridade intensa. O bandolim, por possuir oito cordas agrupadas de duas em duas, formando, portanto, um conjunto de quatro cordas duplas, possui sonoridade mais doce e suave. Conforme o tratamento, porém, consegue o beliscado buliçoso, brincalhão, irônico, capaz de ombrear-se com seu sentido melancolico e plangente.Tal melancolia encontra limitações na dificuldade do prolongamento das notas do bandolim, o que não impede grandes solistas de dele arrancarem sofrimentos e densidades. O instrumento é difícil, mas sua fala é direta.

O choro brasileiro veio se constituindo aos poucos, através da junção de vários instrumentos nem sempre tocados em conjunto. A flauta está em sua origem. Idem a nossa guitarra, o chamado violão.Outra vertente do choro, em fins do século passado - esta, proveniente de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e outros - utilizou o piano, em sua versão popular, para prodigalizar o andamento do choro. Mas o piano não podia acompanhar as andanças dos chorões pela cidade, e a base do choro fica sendo o chamado "terno": flauta, violão e cavaquinho.

O conjunto se expande com a presença de intrumentos de ritmo (pandeiro, às vezes tumbadora) e, com modalidades variadas, o choro se desenvolve nos século XX quando a ele chegam o bandolim em alguns conjuntos, a clarineta e até o acordeom. Há ainda o vetor proveniente das bandas, desde Anacleto Medeiros. Hoje, modernas versões de conjuntos de choro estendem o gênero com a incorporação de instrumentos eletrônicos, mas a flauta talvez seja a grande estrela do choro, desde os seus inícios com o grande Callado(Joaquim Antônio da Silva Callado), Patápio Silva, Pixinguinha, Benedito Lacerda e até hoje o fabuloso Altamiro Carrilho.

O bandolim como solista entra lamentavelmente mais tarde no conjunto de choro, devido à técnica difícil e ao escasso número de instrumentistas aptos aos desafios dos solos e das harmonizações necessárias. Luperce Miranda, primeiro, e Jacob do Bandolim, depois, marcaram a presença do instrumento como solista, façanha qua nos dias de hoje encontra em Deo Rian e Joel Nascimento legítimos sucessores. Outra limitação dificultou a presença protagonista do bandolim no conjunto de choro: a diferença entre o volume (intensidade) do instrumento e o restante do conjunto.

Jacob do Bandolim, mais pela expressividade conseguida que pela técnica, o rigor e a consciência musical, faz-se talvez a maior figura do instrumento em todos os tempos na música do Brasil, trazendo-o para o primeiro plano, formando um sem-número de instrumentistas, valorizando-o como sonoridade e, sobretudo, conseguindo acentuar-lhe tanto a função de apoio rítmico e harmônico como o caráter cantante. A sonoridade limpa, a capacidade de falar pelo beliscado das cordas e a criatividade necessária a contapontos únicos, dialogando com cantores quando, em segundo plano, deram-lhe a condição de imortal da nossa música.

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