Noel Rosa

1"... Queria mesmo a música popular, ou seja, a música do povo inteiro, música generosa, música acessível a todos, que a todos embriaga, que vai de alma em alma, comunicando uma mesma e religiosa emoção. Mas eu queria tocar um instrumento qualquer. E foi o bandolim a primeira coisa que toquei. E que toquei com alma, com unção, no desejo ingênuo de sublimar os sons todos que se desprendiam do instrumento. Sim, estreei com um bandolim. Eu tocava bandolim horas esquecidas, em um encantamento progressivo. Nada me parecia mais belo; nada parecia exprimir uma doçura mais penetrante. Era um instrumento encantado, de que eu arrancava, com meus dedos, inexpertos, efeitos maravilhosos. Eu me embevecia como se nas cordas do bandolim cantasse, de fato, o meu sonho de menino.

Foi graças ao bandolim que eu experimentei, pela primeira vez, a sensação de importância. Tocava e logo se reuniam, ao redor de mim, maravilhados com a minha habilidade, os guris de minhas relações. A menina do lado cravava em mim uns olhos rasgados de assombro. Então eu me sentia completamente importante. Ao bandolim confiava, sem reservas, os meus desencantos e sonhos de garoto que começava a espiar a vida."

Noel Rosa, em depoimento constante no livro Sambistas e Chorões de Lúcio Rangel.

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