Jane do Bandolim (Sampa Centro, fevereiro de 2001)

Jane do Bandolim - Sai a boneca, entra o bandolim

Sampa Centro
Jane do Bandolim

Com 11 anos de idade, Jane o conheceu. Foi amor à primeira ouvida, daqueles que nunca mais saram. Ela abandonou a boneca e agarrou-o, quis saber tudo sobre ele, praticamente casou-se. E como a tradição manda que a mulher adote o nome de quem ela se casa (feministas, me desculpem!), com ela não poderia ser diferente: Jane do Bandolim.

Dele ela tira o choro, estilo que havia sido dado como morto e foi restrito por um bom tempo às rodinhas de saudosistas e agora está retornando ao cenário mais "pop" da música brasileira. "Conheci o choro com 13 anos, assistindo ao Jacob do Bandolim na TV Tupi" , lembra. Desde então já se foram 25 anos dedicados ao gênero. Ano passado, abriu um show de João Gilberto no Barbican Hall (Londres, Inglaterra), nas comemorações dos 500 anos de descobrimento. "O que os ingleses gostam de choro, você precisa ver! Cantaram 'Carinhoso', pediram 'Odeon', uma loucura!".

No Brasil, o choro não aparece muito na mídia como outros estilos mais "fabricados". "Acho que eles deveriam abrir mais espaço para música diferente. Não é tirar quem está lá, eles estão fazendo o trabalho deles, mas é abrir mais o leque", opina Jane.

Sua carreira começou na Rua João Moura (Pinheiros, São Paulo), a Rua do Choro dos anos 80. "Na João Moura, conheci pessoas como dona Ivone Lara, Altamiro Carrilho e Elisete Cardoso", conta a bandolinista. A rua continua lá até hoje mas deixou de ser "do choro" por volta de 89. Em dezembro do ano passado, no dia 16, uma iniciativa conjunta da Secretaria de Estado da Cultura, do Sebrae e da loja de instrumentos musicais Contemporânea elegeu a Rua General Osório como novo endereço dos chorões. Fica perto da Estação Júlio Prestes e quase na frente do DOPS. A música rola nas tradicionais rodas da Contemporânea, aos sábados de manhã, e nas apresentações de artistas do estilo, no mesmo dia, a partir das 16h. Foi durante o show de Izaías do Bandolim com o grupo "Entre Amigos" que encontramos Jane por lá.

Na Rua do Choro, os visitantes podem comprar discos e CDs de artistas do gênero em barraquinhas Apesar do talento que a permite viver exclusivamente de música - um feito bastante difícil no Brasil - ela não é conhecida da mídia e do público como seus colegas masculinos. "Hoje está melhor, as mulheres são mais aceitas em todos os campos. Mas já ouvi coisas do tipo: 'mulher tem que cozinhar, lavar e passar' ou, na época em que eu era casada, 'ao invés de seu marido tocar, você está tocando?! Dá o bandolim pra ele!'".

Outro preconceito que procura quebrar é a idéia que as pessoas têm de que "choro é coisa de velho". "Acho que as pessoas têm essa imagem porque o chorão normalmente fica sentadinho, tocando seu instrumento. Eu gosto de levantar, mexer com o público, fazê-lo participar. Teve uma vez que eu estava me apresentando e havia várias crianças na frente do palco, ouvindo, curtindo pra caramba. Foi tão legal que resolvi comprar bala Juquinha e distribuir para elas".

Esta maneira de se comportar nos palcos Jane herdou - pasmem - do rock. "Adoro Metallica, Iron Maiden, Black Sabbath, Deep Purple, essas bandas bem 'aaaahhh' !!!!!", empolga-se. "O roqueiro não tem vergonha de se mostrar nos palcos. Às vezes falta, para o músico instrumental, essa comunicação com o público. Pelo menos pegar no microfone, falar alguma coisinha, explicar algo do que ele está tocando", sugere.

E quem acha que a energia pára por aí, engana-se. "Outro dia fui a uma rave com meu filho. Ele tinha perdido a carona e me pediu para levá-lo. Nem sabia direito o que era, mas fui. Chegando lá, senti uma energia tão legal que resolvi ficar. Judiei do meu ouvido porque não estou acostumada a som alto, mas fiquei feliz porque adoro estar com o jovem, sentir a energia. O jovem tem uma energia muito boa independente do estilo".

Quem quiser conferir a performance de Jane do Bandolim pode ir ao Shopping Interlagos, às sextas, das 19h às 22h, ou ao restaurante do Hotel Transamérica, aos sábados, das 13h às 15h45. Agora, se você quiser bater um papo animadíssimo com ela, talvez encontre-a nas apresentações da Rua do Choro, que acontecem aos sábados, às 16h.

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