Jane do Bandolim (Jornal A Tarde, 13/09/1998)

Jornal A Tarde - Jane do Bandolim

(Jornal A Tarde, 13/09/98)
Prestes a lançar seu primeiro cd, Jane é a única mulher instrumentista de São Paulo que se dedica a manter viva a tradição do chorinho.

Quem a vê a supõe tão frágil quanto o bandolim que ela toca. Pela voz de criança, até poderia ser. Por seu peso pena também, 52 kg distribuídos em 1,70 de altura. Mas o que poucas pessoas sabem é que ela é a única mulher bandolinista em atividade no chorinho brasileiro. Aos 36 anos, Jane de Bandolim é uma musicista virtuose que estuda música desde os 13 anos. Campineira, de sobrenome russo, Coriolov, Jane anda com o sorriso de orelha a orelha. Depois de 18 anos de trabalho intenso conquistou respeito no meio musical, passou uma rasteira no preconceito de muitos machões do meio e está prestes a lançar seu primeiro CD solo com feras do choro e algumas participações especiais. Anda orgulhosa e cheia de segredos. Mas, entre uma risada e outra, deixa escapar nomes que irão acompanhá-la no estúdio. Entre eles, o saxofonista cubano Paquito D'Rivera, vencedor do Grammy 97 pelo CD Portraits of Cuba.

Jornal A Tarde - É muita responsabilidade carregar o nome Jane do Bandolim?
Jane do Bandolim – Muita, principalmente porque quem me deu esse nome foi o Dominguinhos. Fiquei desconcertada na hora, mas o nome pegou. Em 1979 tinha um programa na TV Cultura que se chamava Alegria do Choro, coordenado pelo bandolinista Isaías, do grupo Isaías e os Chorões. Eles descobriram que eu era a única mulher de São Paulo a tocar choro e bandolim e me convidaram para participar de uma gravação ao vivo com platéia. Ensaiei Pinguinho de Gente do Altamiro Carrilho, Isto É Nosso e Gostosinho do Jacob do Bandolim e, na passagem de som, apavorada de nervoso, reparei no corredor uns caras que conhecia só por disco, como o Zequinha do Pandeiro, que tocou com Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho. Enquanto isso, uma pessoa da produção perguntou meu nome artístico e respondi o meu mesmo, Jane Silvana. Na mesma hora, alguém pôs a mão sobre meus ombros e disse: 'Má qué isso! Bote aí: Jane do Bandolim'. Quando virei, era o Dominguinhos. De lambuja, ele ainda tentou me acalmar dizendo para não ficar nervosa. 'Faça de conta que aquelas cabeças do povo são repolhos. Uma plantação linda de repolhos!', dizia ele. Na última música, subiu ao palco Isaías de Almeida e Evandro do Bandolim, dois nomes importantes no choro brasileiro. Foi o máximo. Depois dessa apresentação, recebi ofertas de trabalho e comecei a me destacar no meio.

JT - Por que o bandolim?
Meu pai é pastor e músico, toca bandolim e faz arranjos para coral. Sempre foi minha referência musical. Quando criança eu adorava o dueto da voz com o bandolim e ganhei o meu primeiro instrumento com 10 anos. Mas comecei tocando bandola (irmã do bandolim, com som mais grave) na igreja em que ele pregava, em Belo Horizonte . Minha maior dificuldade ao tocar era alcançar as casas do bandolim, devido à mão minúscula – como você pode ver, não mudou muito (risos). Só chegava até a quinta casa. Quando fiz minha primeira apresentação na igreja, ninguém aplaudiu e fiquei muito brava. Meu pai me confortou explicando que para louvar a Deus, as pessoas ouviam em silêncio.

JT - Como você conheceu o chorinho?
Aos 13 anos, assisti a uma gravação de Jacó do Bandolim na televisão e fiquei muito emocionada ao vê-lo, e ao mesmo tempo deprimida, porque queria entender o que era o choro, o Jacó, e não tinha acesso a praticamente nada. Nessa idade minha vida resumia-se a Pink Floyd, Jimmi Hendrix, Deep Purple, Yes e fazia rock no bandolim, presente do meu pai. Ganhei dele também o disco Vibrações, do Jacob, que passou a ser meu companheiro. Quando fiz 14 anos passei a estudar com um tio, Joãozinho Bossa Nova, guitarrista e violonista de formação flamenca. Sua praia era jazz e comecei a aprender divisão rítmica, das bravas. Ele era muito áspero, severo e eu chorava em algumas aulas porque minha mão sangrava de tanto esforço. Depois fui chorar em outro lugar: com o Valter Veloso, meu primeiro professor de bandolim. Tinha 16 anos e trabalhava como auxiliar de escritório no centro da cidade. Para economizar dinheiro, eu não almoçava e comprava partituras e livros de harmonia para estudar com meu tio. Com o Valter eu conheci pela primeira vez um regional (grupo típico de choro).

JT - E quando você encarou o palco de verdade?
Na década de 80, uma escola importante foi a Rua e o Clube do Choro que lotavam de gente aos finais de semana. Lá conheci grandes mestres como Otavinho, cavaquinista predileto do Altamiro Carrilho e o Júlio Mesquita, o Carioca, que tocava violão de sete cordas. Nas reuniões com a dupla tive as primeiras noções práticas do tocar mesmo, na raça. Na mesma época fui parar numa casa chamada Brasileirinho. Era uma fogueira. Eu ficava extremamente nervosa porque sabia meia dúzia de músicas e por isso tocava bem baixinho para ninguém ouvir. Por outro lado, os clientes da casa adoravam. Em 86, fui para o grupo Vou Vivendo que trabalhava na casa de mesmo nome, em Pinheiros. Já estava mais experiente e participei das gravações de O Brasil Revive o Chorinho, de 92.

JT - De lá pra cá, o que aconteceu com o chorinho no Brasil?
Dói no coração comentar isso. Tem muito músico fazendo choro em várias partes do Brasil, mas, sei lá, a gente não dá conta de divulgar. Tem músico autodidata, virtuose e que está perdido pelo país. O choro é a única música genuinamente brasileira e os músicos ganham pouco, trabalham a medida do possível, sem muito espaço para se apresentar. A gente não desiste porque seríamos criminosos se fizéssemos isso com uma música tão maravilhosa. Infelizmente, o choro não tem o espaço que merece. Mas o que me entristece é ver uma criança crescer sem formação e informação musical nenhuma. Meus filhos só sabem quem foi Pixinguinha, Cartola, Catulo da Paixão Cearense, porque eu pesquiso e toco música brasileira. Eles têm conhecimento sobre o assunto, mas e os outros adolescentes? Crescem ouvindo o quê? A questão não é tirar o espaço de quem a mídia promove. É preciso abrir o leque porque tem muita coisa a ser mostrada.

JT - Você sofreu preconceito por ser mulher e instrumentista?
O choro é um meio predominantemente masculino, daí você já imagina. Ouvi muita resposta mal-criada, grosseira, suportei cara feia, empresário mau-caráter, toquei em pé sozinha, tantas coisas. Engoli desaforos do tipo 'diz pra ela tocar Remelexo do Jacó do Bandolim que eu quero ver. Duvido que ela toque'. Um dia me perguntaram: 'Você agüenta tocar Brasileirinho?' – respondi: Quanto pesa? Até uns 10 kg eu garanto'. Numa outra situação, um músico comentou: 'Nossa! Eu toco há tanto tempo e nunca toquei no Memorial da América Latina. Como rolou para você tocar lá?' – É melhor não publicar a minha resposta (risos). O preconceito foi ficando mais acirrado à medida que fui conquistando destaque no meio e, nesse caminho, duas histórias me marcaram muito. Uma delas foi acompanhar a rainha do choro, Ademilde Fonseca.

Quando pequena, eu a escutava muito. Ela canta como um instrumento e tem uma dicção perfeita. Outro momento importante foi a homenagem que recebi na série Mulheres Instrumentistas, da rádio Cultura. O programa foi sobre minha vida e carreira e a frase de encerramento fez um trocadilho entre mim e Jacó do Bandolim. Nesse dia, senti o peso da responsabilidade e a importância do meu trabalho.

JT - Como é a aceitação na sua família?
Meu ex-marido me incentivava bastante no início, enquanto não era muito requisitada. Mas aos poucos fui sendo convidada a fazer mais trabalhos e ele não entendia minhas saídas durante a semana, então nos afastamos. Os três filhos, dois meninos e uma menina, sempre foram ótimos e nunca chegamos a um 'cala a boca'. Até porque, como fazer isso se o mais velho tem apenas 18 anos a menos do que eu?

JT - Com filhos, show, casa, dá para estudar, namorar?
O principal desgaste atualmente é tentar conciliar estudos, trabalho e casa porque sou eu quem cuido dos afazeres domésticos, das duas gatas e três cães. Adoro bicho. Ando muito preguiçosa mas geralmente estudo na madrugada, chegando até a cair em cima do bandolim de vez em quando. Para namorar não sobra muito tempo também. Viajo para tocar, preciso trocar de roupa, comer e quando chego em casa estou exausta. Mas preciso dar um jeitinho nisso porque sou filha de Deus. JT - Você também é a primeira band-leader mulher no choro.
É verdade. Passei uns maus bocados no grupo Vou Vivendo, cansei e fui montar um grupo de choro em 1993, que sobrevivesse por si mesmo e não pelos artistas famosos que acompanhou. Convidei o Xixa (cavaquinho), Lula Gama (violão) e o Betinho Sodré (pandeiro) na primeira formação. Hoje está tudo diferente. Haroldo Capelupi (cavaco), Osvaldo Colagrande (violão) e Zequinha do Pandeiro.

JT - No seu regional só tem homens. Como é a relação entre vocês?
Eles me respeitam muito e são, sem demagogia, minha família, amigos, sou fã deles. Todos têm idade para ser meu pai e mesmo assim, independente de ser líder do grupo, sabemos de nossas falhas e limites. Por ser mais nova, aprendo com a experiência dos três. O Haroldo, por exemplo, é o soldado do grupo, o melhor cavaquinista do Brasil. O Osvaldo, além de violonista, é também excelente compositor, cuidando de alguns arranjos e fazendo variações sobre temas. E o Zequinha é o único músico que conheci até hoje que ouve a minha respiração sem eu dar uma palavra. Sua sabedoria e agilidade no couro do pandeiro são impressionantes aos 68 anos de idade.

JT - Por que o grupo se chama Miado do Gato?
Porque eu tinha um gato angorá branco que uma vez foi internado com hepatite. Quando fui visitá-lo no veterinário, ele reconheceu minha voz e miou. Matei a charada. Miado do Gato.

JT - Neste semestre você começa a gravar seu primeiro CD solo. Como será o trabalho?
Vou gravar pela Mixhouse e distribuição da Eldorado e quero mostrar a identidade que conquistei ao longo desses anos. A Jane bandolinista, tocando valsa, choro, samba e até música flamenca, sem rótulos. Para isso fiz uma seleção criteriosa das músicas e convidei o pianista e maestro Laércio de Freitas e o maestro Edson José Alves para dividir os arranjos comigo.

JT - Quais as surpresas do CD?
Vou gravar Esmeraldino Salles, Waldyr Azevedo, Pixinguinha entre outros. As músicas eu não vou dizer, ainda são segredo, mas posso adiantar que os arranjos serão bastante leves porque eu valorizo muito a parte rítmica da música que vem de encontro à pulsação do meu bandolim. Também convidei alguns amigos para gravar como o Paquito D'Rivera, a Jane Duboc, o Bocato, o Edmilson Capelupi. Quem assina a direção musical é a pianista Cilene Peres, que já produziu o Paquito e o Bocato.

JT - Por que os quatro convidados?
O Paquito é um músico jazzista que ama choro e toca saxofone de uma maneira muito própria, batendo com meu estilo. A Jane Duboc porque tem uma voz-instrumento e a habilidade do bip bop no canto. Já o Bocato, porque é o coração batendo, ele toca trombone com muita alma. E o Edmilson Capelupi vem da escola do choro mas não limita-se a ela. Quando pega um violão de sete cordas harmoniza muito bem.

JT - Qual sua expectativa?
Eu quero fazer um CD que as pessoas – ou seja, o povo – gostem. Não tenho grandes pretensões e sei que toco um estilo que não atinge as multidões. No entanto, a faixa etária do meu público mudou bastante. Atualmente há muitos jovens me assistindo shows e se interessando por chorinho. Eles estão precisando sacar uns lances, umas histórias novas, muitos querem estudar com feras e assim, pretendo chegar ao público que gosta de ouvir música e principalmente aos que não tiveram acesso ao choro e nunca ouviram bandolim até agora.

JT - Isso não é muito utópico?
Como artista tenho obrigação de fazer um trabalho bem feito, o melhor que puder em respeito ao público em primeiro lugar e aos autores. Farei o trabalho com a maior seriedade. Não quero gravar um CD de estúdio só para os meus amigos músicos ouvirem.

JT - Quantos shows você já fez?
Até que não foram tantos. Não sei o número, mas nos lugares onde toquei fui criando raíz, como o bar Vou Vivendo, onde trabalhei durante 11 anos. Depois fui para o Clube do Choro e o Gargalhada, permanecendo também bastante tempo.

JT - Isso é uma característica sua?
Sou muito maleável quando posso ser. Então me adapto ao lugar rapidamente. Sempre me dei bem com todos, do manobrista ao dono da casa.

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