Jacob era uma casa de varandas enormes

Hermínio Bello de Carvalho

Caricatura de Hermínio Bello por Sábat
Hermínio por Sábat

Jacob do Bandolim era uma casa de varandas enormes, gramado espesso e muros altos que mal deixavam desvendar a pessoa que ali habitava. Havia códigos rígidos para frequentá-los, a casa e o coração: quem não os seguisse sofria punições terríveis. A pior delas, a mais temida, era a de ser expulso dos saraus que Jacob promovia aos sábados ou domingos ou quando lhe desse na telha. Tela portuguesa, dessas de louça bordada de florões azuis: frágil, portanto, embora resistente às chuvas e aos raios que ele fazia partir sobre as cabeças ruins, os maus músicos, os intrujões, os de ouvidos duros aos sons que inventava ou fazia inventar. Era um alquimista perseguido por uma insônia invencível e que muitas vezes o fazia pegar o carro de madrugada e ir tocar sozinho numa praia distante. Ou, então, isolar-se em seu estúdio, onde tudo, absolutamente tudo, ostentava as suas digitais: a máquina de escrever adaptada para fichas elaboradas per ele, que eram síntese das que mandava buscar nas bibliotecas do Vaticano, da Casa Branca ou dos museus que ele fazia fuçar com sua curiosidade insegotável. Entravam as fichas no rolo da velha Remington e se ajustavam, milimétricas, e tinham até pentagrama para grafar a melodia principal. E serviam tanto para discos, livros e partituras como para recortes de jornais, receitas de bolo e anotações sentimentais. Suas estantes eram também personalizadas: aplicava uma cera para que os envelopes dos discos de 78 rotações deslizassem sem arranhaduras, qual cisnes negros em noites de lua. É claro que não eram envelopes comuns: tinham gramatura especial. Como ele, Jacob do Bandolim, era também um ser especial e que tinha às mãos e ao coração uma acólita de nome Adília que forjava insônias e acomodava-se às suas rabugices, à sua busca da perfeição. Listas e mais listas para tudo: quantos pares de meias e os remédios para a viagem, as tarefas a serem cumpridas a cada dia da semana; telefonar para o Altamiro cobrando a partitura do Callado; já expirava o prazo do empréstimo; não fazê-lo esquecer da bronca no Lúcio Rangel por ter mijado no jardim; telefonar desaforadamente para o Hermínio cobrando a ausência no último sarau, aproveitando para identificar a fita do Nelson Cavaquinho que o maravilhara; não esquecer-se de rever os pneus do carro de Helena, sua filha adorada, ou de espinafrar o filho que todos supunham fosse de seu especial desagrado e não era; e enfim ocultar tanto quanto possível que ali detrás dos muros altos, do gramado espesso e do corpanzil desajeitado pulsava um coração generoso - porque era de gargalhar pouco, mas quando o fazia era de estremecer as paredes, e quando acarinhava o fazia desajeitado, tropeçando nos buracos de seu próprio destrambelhamento.

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