Hamilton de Holanda fala para o site Bandolim (29/10/2002)

Hamilton de Holanda fala para o Bandolim

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Instrumentista precoce, Hamilton de Holanda começou a tocar o bandolim aos 5 anos e ainda menino já era elogiado por mestres como Armandinho e Altamiro Carrillho. Hoje, aos 26 anos, Hamilton é considerado uma das maiores expressões da música brasileira e do bandolim.

Vencedor do Prêmio Icatu-Hartford de Artes 2001, o bandolinista passa um período em Paris, de onde começa sua carreira internacional e divulga seu primeiro trabalho solo.
Foi de Paris que Hamilton respondeu a algumas perguntas para o site Bandolim.

A nova novela da Rede Globo tem o choro como um de seus personagens principais e grandes festivais de música instrumental abrem espaço para o bandolim e o choro. Como você vê esse novo panorama? Caiu por terra a afirmação de Jacob do Bandolim de que o choro vai acabar junto as varandas?

Eu tenho pensado muito sobre isso e acho que os brasileiros estão cada vez mais se dando conta da riqueza e da importância do choro para a cultura nacional. Os importantes eventos que você citou comprovam isso, e a cada dia aumentam as rodas de choro em todo o país. Além disso, temos o exemplo da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, em Brasília, que oferece a oportunidade de se aprender choro na escola.

E choro se aprende na escola?

Com certeza! Desde que seja tocando. E essa é a filosofia da EBCRR: tocar! Dedicação ao instrumento e prática de conjunto e roda de choro.

Oswaldinho lançou há pouco o Asa Branca Blues e artistas como você e o Trio Madeira Brasil também vêm fazendo esta ponte entre o nacional e o universal. Como fazer esta mescla sem perder a identidade?

Existem várias formas. No meu último disco, busquei a linguagem universal através de um repertório exclusivamente brasileiro, deixando as influências à mostra e, acima de tudo, mostrando a beleza do choro e do bandolim.

Como você vê a internet nesse processo?

Atualmente vejo a internet como a forma mais prática e barata para contatos internacionais. Através dela podemos estar no mundo inteiro 24 horas por dia. Aqui em Paris eu navego bastante, quando estou viajando nem sempre dá tempo. Mas pretendo passar a usar a internet de forma mais constante para o meu trabalho.

E como você se sente sabendo que uma música ou mesmo um disco inteiro seu pode ser copiado pela internet? Qual a sua posição em relação a essa prática?

É um assunto difícil... Eu sou contra. Adoro ter os discos originais.

E o que você tem ouvido?

Vou citar alguns discos que estão na minha prateleira agora. Passarim (Tom Jobim), Vibrações (Jacob), Angelus (Milton Nascimento), Luzia (Paco de Lucia), Kaya n' Gandaya (Gilberto Gil), Jacob na rádio MEC, alguns discos do Hermeto, Vivências Imaginadas (Vicente Amigo), Elis canta Milton, Maurício Carrilho, o novo disco do Márcio Faraco e alguns do bandolinista Cristóbal Soto. Cristóbal é um venezuelano que é uma espécie de "ministro" do bandolim aqui em Paris e conhece quase todos os bandolinistas do mundo e tudo sobre o bandolim. Aliás, estou podendo comprovar aqui que Jacob é ídolo de bandolinistas em todo o mundo.

Como é sua atual rotina de estudos?

Minha rotina é muito sem regras. Simplesmente pego o bandolim e vou tocando duas, três, quatro horas. Às vezes toco dias sem parar, às vezes fico dias sem pegar no instrumento. O que tento fazer é tocar limpo, lento, rápido, música difícil, música fácil, fazer harmonias... tudo para que nos shows e concertos eu possa passar para as pessoas a emoção que sinto tocando bandolim.

O repertório do seu trabalho solo está bastante variado. Como foi a escolha das faixas e dos arranjos?

A escolha do repertório não foi muito difícil. Escolhi músicas que gosto de tocar, em uma lista com cerca de quarenta. Depois fui pensando no conceito do disco, que é com o bandolim de dez cordas como solista.

Conversei com alguns amigos como Marco Pereira, Vítor Martins (diretor da gravadora Velas), meu irmão Fernando César, Paulinho Albuquerque, e meus companheiros do Brasília Brasil Rogério Caetano (7 cordas) e Daniel Santiago (6 cordas), até chegarmos às onze que estão no disco.

O próximo passo foi relacionar cada música com os músicos com quem gostaria de tocar. Vibrações, por exemplo, foi uma escolha muito especial, pois é meu choro preferido. Depois de imaginar vários arranjos, concluí que o mais bonito seria o tocado pelo próprio Época de Ouro, que acompanha Jacob na gravação original. O resultado foi muito emocionante e acredito que está bem registrado no disco.

Nesse disco você usa o bandolim de dez cordas. Como chegou a esse instrumento?

Há alguns anos eu vi na casa do Armandinho um bandolim elétrico de dez cordas. Depois tomei conhecimento de outros músicos que usavam mais cordas no instrumento. No começo do século o virtuoso italiano Rafaelle Callace usava um bandolim de dez cordas e o antigo chorão Mário Álvares usava um de doze!

Na mesma época em que tomei conhecimento dessas possibilidades estava sentindo necessidade de mais grave no instrumento, para poder tocar os arranjos que imaginava. Queria mais acordes, braço maior, caixa acústica maior, mais som, afinação melhor, etc.

Depois de uns dois anos pedi ao excelente luthier Vergílio Lima que fizesse um protótipo de um bandolim de dez cordas. Em outubro de 2000 ele me mandou o instrumento que hoje é o meu bandolim oficial. Comecei a usá-lo em dezembro de 2000 em shows com Marco Pereira e Hermeto Pascoal e a primeira gravação com ele está no disco Abre Alas, com o Brasília Brasil Trio.

E quais os planos para o futuro?

Especificamente em relação ao bandolim de dez cordas, ainda quero melhorar o instrumento. Estou procurando meu bandolim ideal e acredito que estou perto.

Além disso, no momento estou divulgando meu primeiro disco solo, Hamilton de Holanda (gravadora Velas).

Destaque

Veja um raio-x do equipamento de Hamilton, os detalhes sobre o

bandolim de 10 cordas e sua discografia completa.

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