Escrevendo para regional

Por Aleh Ferreira

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O regional é normalmente composto por violões, cavaquinho, pandeiro e um instrumento solo (como o bandolim). Normalmente arregimentado com dois violões (há também os regionais de um ou três violões), o primeiro trabalha na execução dos baixos enquanto o segundo na base e às vezes em baixos em quintas ou terças. (EXEMPLO 1 - Carinhoso) O cavaquinho, sempre na base reforça o trabalho do segundo violão, porém com timbre e oitavas diferentes.

Quando escrevo apenas para regional, procuro somente escrever através de cifras, desde que o grupo tenha um violonista criativo (como os cariocas Dino, Rogerinho do Nó, ou os paulistas Luizinho7, Arnaldinho, Alessandro Penezzi, Edmilson Capelucci, Zé Barbeiro e tantos outros). (EXEMPLO 2 - Naquele tempo) Porém, quando os músicos não são acostumados com o choro, como é o caso dos músicos eruditos, a forma de escrever muda, tornando-se necessária a escrita de baixos além das cifras, o já complica um pouco o arranjo. (EXEMPLO 3 - Naquele tempo)

Vale lembrar que, apesar de usarmos a clave de Sol para violões, eles têm o mesmo dó grave do violoncelo que é escrito em clave de Fá. Na verdade o violão soa uma oitava abaixo do que se escreve.

Para o pandeiro, o ritmo, dificilmente eu escrevo para ele, pois é muito raro encontrarmos um pandeirista de choro que leia partituras.

O bandolim é normalmente usado para solos, tocando a melodia principal. Ele se encaixa perfeitamente em músicas lentas e rápidas. Portanto em melodias com notas muito prolongadas, prefiro escrever para cordas ou madeiras, como é o caso da música Tristezas de Um Violoncelo, cujo tema principal, confiei ao cello. O bandolim vai melhor em melodias rápidas, como é o caso da música de minha autoria, Mozartiando. (EXEMPLO 4 - Mozartiando) Isso acontece porque a vibração das notas no instrumento é de pouco tempo de duração, o que normalmente é contornado com o uso do trêmulo. Em se tratando de arranjos unindo o regional aos arcos, como em meu cd Sonhos e Emoções, também deve-se levar em conta a virtuosidade dos instrumentistas dos naipes das cordas. Se a frase utilizada é muito difícil para os violoncelos, nunca se deve escrever para todos eles (tutti), usando a palavra "solo" nas partituras, entende-se que apenas o violoncelista spalla deve executá-la. (EXEMPLO 5 - Ainda me recordo) Aliás eu vivo escrevendo difícil para o violoncelo, pois conto sempre com a presença de meu grande amigo, spalla de quatro orquestras de Sampa e um dos melhores de nosso país, o violoncelista Julio Ortiz. É um caso de aproveitar o material de que dispomos. Mas quando ele não pode comparecer aos meus shows... é um sufoco!

Ao fazer um arranjo é importante considerarmos as características dos músicos ou cantores para quem estamos escrevendo. Outro dia, os ótimos cantores Moacyr Santos e Sandra Pereira encomendaram um samba em homenagem a Carmen Miranda, a Pequena Notável. Quando sentei à mesa para compô-lo, junto ao letrista L. J. Borges, compus a melodia pensando na grande extensão de voz da dupla. Conclusão: fiz uma música para pouquíssimas pessoas cantarem!

Assim, devemos aproveitar as qualidades dos instrumentistas e também entender a formação de cada um. Músicos que não têm prática no gênero não podem tocar choros só lendo as cifras. Por outro lado, é às vezes dispensável fazer um arranjo escrito para muitos músicos populares.

Aleh Ferreira é bandolinista e arranjador.
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