Deo Rian fala de sua trajetória como bandolinista

A visão de Déo Rian

Déo Rian

Déo Rian já viu de tudo. Ainda adolescente conviveu com os maiores mestres do instrumento, participou ativamente da revitalização dos anos 70 e optou pelo caminho dos discos independentes para continuar a nos proporcionar sua arte. Teve a chance de uma relação única com o mestre Jacob, que ajudou a formar seu próprio estilo, hoje inconfundível.

Déo dividiu um pouco de sua história com o Bandolim, falando sobre antigos, novos bandolinistas, Jacob e sua carreira.

Por ter se iniciado cedo no choro você pôde conviver com bandolinistas de outras gerações. Como você vê a evolução da técnica, a facilidade de adquirir conhecimentos e as diferenças no uso do instrumento.

Atualmente a maioria dos bandolinistas prioriza a técnica da velocidade em detrimento da interpretação. Eu, particularmente, valorizo a sonoridade do instrumento e sou fã incondicional de uma interpretação sensível.

Quanto à facilidade em adquirir conhecimentos técnicos do instrumento, em que pese o advento da internet, ainda é insuficiente a quantidade de métodos de bandolim, por exemplo.

E como foi a sua transição pessoal? Sentiu uma necessidade de "se adaptar" a este novo cenário?

Com naturalidade, meu estilo continua o mesmo. Fiel ao choro tradicional, preocupando-me sempre com a interpretação, procurando tocar o repertório pouco divulgado. Apesar de existirem novos bandolinistas maravilhosos (como Bruno Rian, Jorge Cardoso, Hamilton de Holanda, Adriano e Danilo Brito) ainda é preciso ouvir e estudar mais Luperce Miranda, Evandro e Rossini Ferreira entre outros.

Apesar de não ter sido oficialmente aluno de Jacob você provavelmente foi o bandolinista que mais usufruiu do contato direto com o mestre. Como foi essa convivência em termos do seu aprendizado? Quem foram realmente seus professores?

Tive a felicidade de privar da amizade do grande Jacob do Bandolim e aprendi informalmente com esta convivência: olhando-o tocar nas rodas que promovia, perguntando sobre eventuais dúvidas e acatando as sempre pertinentes observações do "mestre". Jacob foi muito importante na minha carreira de chorão.

Formalmente, meus professores foram Moacyr Arouca que, curiosamente, sendo grande clarinetista, ensinou-me bandolim, e Luperce Miranda, bandolinista que tocava com extrema velocidade, técnica até hoje jamais igualada.

Você poderia nos passar alguma dica ou técnica que tenha aprendido direto com Jacob?

Jacob feria as cordas do bandolim com movimentos circulares de palheta, usando a primeira e a segunda articulações do dedo polegar e a segunda articulação do dedo indicador. É o que faço até hoje e que passei também para o meu filho Bruno Rian.

Você vem de uma família de músicos amadores, sempre manteve uma profissão paralela a suas atividades musicais e incentiva seu filho a fazer o mesmo. O que você do choro ter perdido essa característica de amador, de varanda?

Houve uma transformação natural com o passar dos anos, a começar com a transformação do mobiliário urbano. Os quintais foram acabando e junto com eles as rodas de choro informais que se realizavam naqueles espaços. Naquelas rodas, os músicos tocavam por amor ao gênero. Não viviam do choro. Eram amadores. Cada um tinha o seu emprego, geralmente fora da música.

Hoje, mesmo com a pouquíssima divulgação da música instrumental, os músicos de choro estão se profissionalizando. Mas, para isso, estudam música seriamente e não ficam somente no choro. Tocam, também, outros gêneros, dão aulas, dedicam-se à pesquisa, à preservação dos acervos, da memória do choro, fazem incursões nas áreas fonográfica e de direitos autorais . . . Enfim, diversificam para sobreviver. Eu, embora admirador incondicional do choro de varanda, dos quintais, reconheço o valor dos músicos da nova geração que preservam e difundem o choro.

Com a crise geral da indústria fonográfica e as imposições do mercado muitos artistas de vários estilos estão optando pelo caminho dos "independentes". Como você chegou a essa opção?

Pela falta de oportunidade para gravar. As gravadoras, principalmente as multinacionais, não se interessam muito em gravar esse gênero. Preferem lançar CDs com música de consumo imediato e, muitas vezes, de qualidade duvidosa. Quando pensam no choro, geralmente optam por coletânea com regravações de diferentes artistas em um mesmo CD.

Ficha técnica
Instrumento: Bandolim do Souto (Bandolim de Ouro)
Cordas: Rouxinol
Palhetas: Tartaruga
Captador: Shadow

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