'Déo Rian', por Nana Vaz de Castro

Nana Vaz - Seus últimos discos foram gravados de forma independente?
Déo Rian - É, eu lancei dois discos independentes. Primeiro gravei Choro em Família que depois a Kuarup pegou e lançou. É também uma gravadora pequena, que não tem uma distribuição forte como as multinacionais. É uma gravadora esforçada, importantíssima na música popular brasileira, tem um catálogo ótimo, mas sobrevive com dificuldades, porque as grandes gravadoras massacram as pequenas. Bem, e depois disso fiz, também independente, no ano passado, Choro choro choro.com.Déo Rian, uma tiragem de mil discos, que já está quase acabando, e aí eu vou procurar uma nova gravadora para continuar e divulgar. E é assim que eu vou fazendo, produção independente, se não a gente não grava. Eu faço as minhas economias, não tenho nenhuma pretensão de ficar rico tocando choro – se não fiquei até hoje, não fico mais – então vou aos poucos mostrando o que eu tenho nos meus arquivos, frutos da minha convivência musical com vários músicos da antiga.

NV - As gravadoras antigamente tinham mais interesse?
DR - Na época que eu comecei no meio profissional de música, em 1962, era época da música estrangeira como rock e iê-iê-iê. O Jacob [do Bandolim] reclamava muito, nessa época, que as gravadoras gravavam pouco choro, e o Jacob chegou a ficar dois anos sem gravar, mas mesmo assim gravava-se muito mais do que hoje. Quando eu comecei em 1970, eu pude gravar muito. Mas hoje em dia não tem, eles só fazem essas coletâneas. Você vê, um Altamiro Carrilho não tem uma gravadora. Eu não tenho gravadora, gravo independente. E tantos outros grandes músicos que tem por aí, não têm uma gravadora de peso.

NV - Parece que esse descontentamento é relativo. Nos anos 60 o Jacob reclamava que quase não se gravava, mas hoje você diz que naquele tempo gravava-se muito...
DR - Mas o Jacob era contratado da RCA-Victor, como tantos outros músicos. As gravadoras tinhas seus casts de artistas, de músicos. Hoje é muito limitado, e quando tem é cantor, instrumentista, nem se fala. Na televisão hoje raramente se vê um programa musical, nesses canais como Globo, Bandeirantes, SBT. Só às vezes na TV Cultura, Educativa, TV Senado... Mas eu pelo menos peguei uma época em que participei de muitos programas da TV Globo e TV Tupi, Flávio Cavalcanti e outros, junto com Abel Ferreira, Época de Ouro e outros. E naquela época se ganhava cachê, hoje em dia você paga pra tocar, se quiser. Ou então vai de graça. Eu acho isso um absurdo, na minha opinião isso não existe. Mas felizmente ainda se encontra uma gravadora como a Acari.

NV - E o que pode ser feito para combater esse estado de coisas?
DR - Isso é, como muitos dizem, muito complexo, envolve muita coisa. Sinceramente, eu não sei explicar, não. Tem muita coisa por trás disso. Teria que começar com um trabalho pelas gravadoras, de música popular brasileira, instrumental, começar pelas grandes gravadoras. Porque as pequenas esbarram no problema da divulgação. As grandes gravadoras massacram as pequenas. Elas pagam pra divulgar seus produtos, então fica difícil para as pequenas.

NV - Como você vê o trabalho que vem sendo desenvolvido pela Acari Records?
DR - A Acari está fazendo um trabalho excelente de música popular brasileira, principalmente de choro, que as outras gravadoras não fazem. As multinacionais não querem nem saber desse tipo de trabalho, e isso é prejudicial à música popular brasileira, aos jovens, que atualmente não conhecem essa parte, porque hoje as reuniões de choro praticamente não existem mais. Eu, que convivi com vários chorões da antiga, que freqüentava várias reuniões de choro, vejo que hoje isso não existe mais. Então as gravadoras tinham que mostrar, que nem a Acari está fazendo. Como esses últimos trabalhos excelentes que eles fizeram, o Princípios do Choro e a obra do Joaquim Callado, coisas importantíssimas para a música popular brasileira.

NV - Você tem muita coisa documentada?
DR - Sim, muita coisa. Muita partitura, choros que eu sei tocar, que aprendi com chorões antigos, como o Léo, irmão do Pixinguinha, o próprio Pixinguinha, com quem convivi pouco, mas com o irmão dele, o Léo, eu convivi muito, freqüentava a minha casa, lá em Jacarepaguá, o Peixoto, Cincinato, Nascimento, Honório, primo do Pixinguinha... Enfim, aprendi muita coisa dessa convivência com eles, e tenho algumas coisas em arquivo. Eu guardo essas coisas pra mostrar, e faço de forma independente porque já cansei de mandar projetos para as grandes gravadoras e ninguém deu a mínima. Mas isso não é de agora, eu já parei há muito de tempo de mandar esses projetos. Eu gravei nelas todas, comecei em 70 na RCA, a partir do Jacob, depois gravei na EMI-Odeon, na Continental, com o Época da Ouro e sozinho como solista, na Eldorado de São Paulo, na CID... Gravei em várias gravadoras, e cansei de mandar projetos. Agora eu faço minhas economias e gravo meus discos independentes. Isso é pra divulgar, não para ganhar dinheiro.

NV - Quais são outros projetos que você tem em mente?
DR - Tudo nessa linha de choro. Eu poderia fazer outras coisas diferentes, como por exemplo o disco Clássicos, que fiz com o Raphael Rabello, produzido pelo Dalton Vogeler, que foi inclusive quem me lançou em disco.

NV - É verdade que foi ele o responsável pelo seu nome artístico Déo Rian?
Na época existia o cantor Déo, "o ditador de sucessos", de São Paulo...

DR -
NV - Que inclusive também não se chamava Déo de verdade, era apenas o nome artístico. [Na verdade o nome do "Ditador de Sucessos" era Ferjalla Rizkalla]
DR - O Dalton me viu tocar na casa do Canhoto do Cavaquinho (era aniversário dele) e gostou. O Orlando Silveira, que era arranjador da Odeon na época, também gostou, e eu não era profissional nem nada... Quer dizer, eu comecei minha vida profissional em 1962, no Regional do Darli do Pandeiro, comecei a tocar ali, mas não foi à frente, pouco depois as rádios fecharam com a Revolução, em 1964, aí eu tocava aqui e ali, mas sem ser profissional, tocava em serestas, essas coisas. Aí o Dalton e o Orlando me viram tocar na casa do Canhoto, gostaram e quiseram me levar para a EMI. Mas acontece que ele não conseguiu que eu gravasse lá. Isso foi em 1969. Mas em agosto desse mesmo ano, dia 13 de agosto de 1969, o Jacob faleceu, e ele era contratado da RCA-Victor. Aí, como o Dalton tinha gostado de me ver tocar e conhecia o diretor da RCA na época, Romeu Nunes, falou para eu fazer um teste na RCA. Eu fiz, eles gostaram, e eu fiz o meu primeiro disco em 1970, com Quinteto Villa-Lobos e o Quarteto de Cordas da Escola Nacional de Música, e Dino e Canhoto e Gilberto no Pandeiro. O disco era só Ernesto Nazareth.

NV - E no mesmo ano você entrou no Época de Ouro.
DR - Foi. Alguns meses depois. E fiquei no Época de Ouro até 1977. Nesse tempo gravei outros discos, comecei minha vida profissional mesmo, gravando etc.

NV - Você foi o primeiro bandolinista a integrar o Época de Ouro depois do Jacob. Como foi isso, essa responsabilidade? Como foi a reação dos demais integrantes do conjunto?
DR - Eu já conhecia todos eles, das reuniões da casa do Jacob.

NV - Mas conhecer todos eles é uma coisa. Outra coisa, bem diferente, é entrar no conjunto substituindo o Jacob do Bandolim...
DR - Foi o seguinte: eu freqüentava a casa do Jacob e ele deixava eu assistir aos ensaios. Porque em geral ele não gostava que ninguém assistisse aos ensaios, mas a mim ele deixava. Eu era vizinho dele, em Jacarepaguá. Então eu já conhecia o Dino, o Jonas, o Carlinhos, o Gilberto. A maioria das reuniões eu freqüentava, participava, e às vezes até tocava uma música ou outra. Quando o Jacob faleceu, ele fazia um show com o Época de Ouro na casa do ministro da Aeronáutica (se eu não me engano na época era o Márcio Souza Neto), no Galeão. Era um show que faziam sempre, uma ou duas vezes por ano, o Jacob, o Época de Ouro, a Elizeth Cardoso, muitos artistas. Então o Jacob faleceu em 69, e em 70 o César [Faria] ligou para mim e disse: "Déo, o ministro nos chamou para fazer o show lá no Galeão, mas o conjunto está disperso com a morte do Jacob, estamos sem solista. Você topa fazer com a gente?". Eu disse que topava, claro. Ele aí ligou para o Dino, para o Jonas, o Damásio (que inclusive já tocava comigo desde 1962, e estava no Época de Ouro no lugar do Carlinhos, que tinha saído), para todos eles, reuniu o conjunto e nós fomos fazer esse show lá no Galeão. O pandeirista foi o Luna porque o Gilberto não quis mais tocar depois da morte do Jacob. Quando terminou o show, o César reuniu todos, inclusive eu, e perguntou se queríamos continuar dali pra frente, e todo mundo quis. O único que não quis foi o Luna, porque era ritmista, gravava muito, estava destreinado do pandeiro, e não queria. Aí o Dino chamou o Jorginho [do Pandeiro], que está no conjunto até hoje. E foi assim. Depois fizemos o show Sarau, que foi o maior sucesso, e eu fiquei no conjunto até 77, quando saí e fui trabalhar com a Clara Nunes. Trabalhei um ano com ela e depois formei meu próprio conjunto, Noites Cariocas.

NV - Como você conheceu o Jacob do Bandolim?
DR - Eu era vizinho dele em Jacarepaguá, e eu ia numa roda de samba que acontecia num açougue na Freguesia, o Açougue do Lulu. Ele era açougueiro o tocava violão, como amador. Minha mãe comprava carne ali. O açougue tinha aquelas portas de aço que de fora você consegue ver lá dentro. Então aos domingos depois do almoço ele fechava o açougue e convidava vários músicos dali. Porque Jacarepaguá foi um reduto de chorões. Os chorões tocavam ali no açougue e o pessoal ficava do lado de fora assistindo, olhando. Numa dessas, tinha um senhor que tocava violão (muito mal, por sinal), Seu Milton, e ele me perguntou se eu conhecia o Jacob do Bandolim. Eu disse que não, pessoalmente não, só de discos. (Antes disso, a minha mãe já tinha ido na casa do Jacob perguntar se ele dava aula, e a dona Adília disse que não.) Então o Seu Milton me perguntou se eu queria conhecer o Jacob, e eu disse que sim, claro. O Seu Milton era carpinteiro, tocava mal violão mas era excelente carpinteiro, e fazia coisas para o Jacob. Mas de fato, ele marcou e num dia me levou na casa do Jacob. E foi justamente no dia do meu aniversário, 26 de fevereiro, que eu conheci o Jacob. Não lembro se eu estava fazendo 17 ou 18 anos, mas lembro que era um domingo à noite. Aí eu fui, levei comigo dois violões que tocavam lá no açougue, Salviano e Passarinho, e fui. Ele me atendeu muito bem, falou para eu tocar. Eu nessa época tinha mania de marcar o compasso com o pé, e ele pisou no meu pé e me disse para marcar com a cabeça. E eu toquei lá até tarde, ele ouviu, e quando acabou ele mandou que eu fosse lá todo domingo de manhã. E como eu gostei demais daquilo, todo domingo de manhã passei a freqüentar, até que fiquei amigo dele.

NV - E aos domingos de manhã tinha alguma coisa, ensaio?
DR - Não, nada, eu ia conversar com ele, sozinho. As reuniões eram na sexta à noite ou sábado à noite. No domingo de manhã eu ia para bater papo, tocar com ele, ele botava disco para eu ouvir, pegava no violão e mandava eu tocar o bandolim.

NV - Era então uma aula disfarçada?
DR - É, era isso, não tinha obrigação de eu pagar a ele, nem ele tinha compromisso de professor comigo, era uma amizade. Aí quando tinha uma reunião, na sexta-feira, ele me chamava, eu tocava com ele, ou seja, um amigo. Quando eu tinha dúvidas, perguntava para ele. Uma vez pedi a ele para me passar o Língua de Preto. Ele pegou o papel de música, sem bandolim (porque muita gente diz que o Jacob não sabia escrever música, mas sabia sim, escrevia e sem instrumento), virou de costas para mim, assobiou a melodia, escreveu tudo, jogou em cima de mim o papel e disse: "Pega o bandolim e vê se está certo isso aí. E semana que vem me traz esse choro debaixo do dedo." E escreveu certíssimo, ainda botou umas dificuldades diferentes do que ele tinha gravado no disco. Essa foi uma. Outra foi o Odeon, do Ernesto Nazareth, que estava em dó sustenido menor na parte de piano e eu não sabia fazer transcrição naquela época, e queria tocar. Então eu cheguei e pedi: "Seu Jacob" – eu só o chamava de Seu Jacob – "eu queria tocar Odeon, mas acho difícil, a parte de piano está em dó sustenido menor, o bandolim toca em ré menor e eu não sei fazer essa transcrição." Ele disse "está bem, qualquer dia eu te passo o Odeon". E nunca mais. Mas ele não gostava que ficasse pressionando, e eu era na época mais tímido do que sou hoje. Até que um dia, num sábado à noite, fiquei batendo papo e ouvindo disco com ele, estávamos só nós dois, e quando chegou meia-noite (e não existia essa bandidagem que existe hoje, a gente andava mais tranqüilo, eu saía de lá à uma da manhã e não tinha medo nenhum), eu fui embora. A casa dele era muito grande, tinha um quintal enorme e a casa ficava no centro do terreno, e do lado tinha aquele corredor enorme, portão lá na frente. Saí com ele, ele foi me levar até o portão, quase uma da manhã, já tínhamos ouvido um monte de música – ele pegava o violão e testava uma harmonia, depois outra, e outra. Aí no portão ele virou-se pra mim e perguntou: "Eu ainda não passei o Odeon para você?", eu disse que não, e ele: "quer aprender o Odeon agora?". E pronto, voltamos pra lá, ele pegou um bandolim, eu peguei outro, e ele me passou a primeira do Odeon inteira, em ré menor, nota por nota, até eu decorar. O Jacob era assim: para música ele dizia que não tinha pressa, se precisava dez, quinze, trinta vezes, passava. Ele passou a primeira e depois disse que a segunda ele ia tocar algumas vezes e que eu prestasse atenção para tentar trazer na próxima vez a primeira e a segunda. Aí tocou devagar, é claro, uma vez, duas, três, quatro, depois me disse para eu me virar em casa.

NV - Você sempre foi acostumado a tirar músicas das gravações, de ouvido?
DR - Sim, tirava, mas o Odeon eu achava difícil. Naquela época eu estava estudando, ainda não tinha muita prática. Odeon era uma música mais chata de tirar, tinha acordes, para tirar de ouvido de um disco, naquele estágio que eu estava, tinha dificuldade.

NV - Tirar de ouvido é uma escola para a grande maioria dos chorões.
DR - É, sem dúvida. E é excelente. Mas tem certas músicas que é mesmo difícil de tirar de ouvido exatamente certo, só tendo muita experiência, para iniciante é muito difícil, o professor tem que corrigir, se não a música pode ser um dó natural e você dá um dó sustenido, e não é, já muda o acorde. Então a minha convivência com o Jacob era assim.

NV - E durou quanto tempo?
DR - Sete anos, até ele morrer. Eu conheci muita gente lá na casa dele: Radamés Gnattali, Dorival Caymmi, Elizeth, Paulo Tapajós, Maestro Gaya, Ataulfo [Alves], Sérgio Cabral, Hermínio Bello de Carvalho, Turíbio [Santos], todo mundo. Quase toda semana o Jacob dava uma reunião, sexta ou sábado. Eram reuniões que começavam oito da noite e terminavam quatro da manhã. Houve vezes que eu saí de lá seis e meia da manhã, clareando o dia. Era uma beleza, coisas que não voltam mais, infelizmente. A gente pra sair hoje é uma bandidagem terrível, a gente fica com medo. Naquela época não tinha violência, não tinha nada, saía tranqüilo...

NV - Sua família era musical?
DR - Sim, havia muitos músicos, mas todos amadores. Meu bisavô já dava reuniões de choro em casa, em Jacarepaguá. Meu avô por parte de mãe dava reuniões em casa, fazia até folia de reis, carnaval, ele tinha bloco, tudo lá em Jacarepaguá. Os irmãos da minha avó, tios da minha mãe, todos eles tocavam – cavaquinho, violão etc. Todos amadores, tocavam em aniversários, almoços... Antigamente tinha muito isso, eu ainda alcancei, tudo era motivo de fazer uma festa. E geralmente com música ao vivo, um regional. Eu nasci nesse meio musical, e quando era pequeno ia a essas festas, e gostava de ficar no meio dos músicos o tempo todo, assistindo. Quando cheguei aos dez anos de idade, uma vizinha lá de Jacarepaguá me deu um cavaquinho que eu tenho até hoje, e foi nele que eu comecei. Foi meu primeiro instrumento. Mas meu tio pegou e afinou ré-sol-si-ré e começou a me ensinar umas musiquinhas da época, os acordes e tal. Depois, um amigo do meu pai chamado Oscar, que tocava violino, afinou este mesmo cavaquinho na afinação de bandolim, que é a mesma afinação de violino, e começou a me ensinar o cavaquinho afinado como bandolim. Comecei a tocar assim, e achei mais recursos, para solar. Então aos 15 anos meu pai me deu um bandolim que eu comecei a tocar, e eu tenho esse bandolim até hoje. Foi aí que eu comecei a estudar bandolim por música, com o Moacir Arouca, que era músico do Exército, tocava violão e clarinete, e era de Jacarepaguá. Ele não tocava bandolim, mas me ensinou, com método. Foi aí que eu aprendi a ler música, método e técnica de bandolim, tudo com ele.

NV - Você nunca abriu mão de ter outra profissão para não viver só da música?
DR - Não. Tudo é o meio em que a pessoa vive. Meu pai não queria que eu vivesse de música porque do pessoal que ele conhecia, ninguém vivia de música, todo mundo tinha outro emprego. O Jacob dizia pra mim: "Toque o seu bandolim, mas não viva dele, porque não dá pra viver de bandolim". O próprio Jacob dizia isso pra mim. O pessoal do Retiro da Velha Guarda, aonde eu ia muito, desde os 14, 15 anos, e que era freqüentado por Pixinguinha, seu irmão Léo, todo o pessoal antigo de 60, 70 anos, ninguém vivia de música. Eu estudava no colégio A Instrução, e o Juvenal Peixoto, chorão que tocava clarinete, era professor de matemática do meu colégio. Ou seja, todo mundo tocava seu instrumento mas ninguém vivia de música, todos tinham seus empregos. E nessa convivência com eles, eles diziam para mim: não viva de música, porque não dá.

NV - Isso naquela época em que, teoricamente, o mercado de trabalho era melhor para instrumentistas.
DR - Eu conheci o Regional do Canhoto, por exemplo, mas eles eram empregados da rádio Mayrink Veiga na época. Mas também, depois teve a Revolução de 64, as rádios acabaram e ficaram todos sem emprego. O próprio Dino passou uma época tocando guitarra em bailes para sobreviver. Por isso eu nunca cogitei viver só de música. Claro que há casos como Waldir Azevedo, que estourou com Brasileirinho e Delicado, mas isso é uma exceção.

NV - E onde você trabalhou e trabalha até hoje?
DR - Trabalhei na Companhia Estadual de Gás, depois fui para a Embratur, onde me aposentei, como funcionário público, e hoje trabalho da ADAF, Associação de Direitos Autorais, sou diretor lá.

NV - E isso atrapalhou sua carreira de músico?
DR - Claro que atrapalhou. É que eu nunca quis viver de música. Mas o fato é que eu nunca pude estudar tanto quanto eu gostaria, estudar mesmo, a fundo, ser um arranjador, ou um cara que se dedicasse exclusivamente ao instrumento. Eu podia tocar muito mais bandolim do que eu toco hoje. Música é muita prática, é preciso estar sempre estudando o instrumento, pesquisando... Então claro que atrapalhou. Shows e viagens que eu não podia fazer... No Época de Ouro mesmo, muitas vezes o Ronaldo [do Bandolim] foi tocar no meu lugar, porque eu não podia ir. Hoje o Ronaldo toca no Época de Ouro, ele me substituiu quando eu saí, mas desde antes ele já tocava muito no meu lugar.

NV - E se tivesse que fazer tudo de novo, você faria do mesmo jeito ou arriscaria viver só da música?
DR - Não arriscaria, não. É muito complicado.

NV - E o seu filho, Bruno Rian, que já está construindo uma carreira como bandolinista, o que você aconselha a ele?
DR - Ele está com 21 anos e também não pretende viver de música. Porque eu vejo muita gente correndo atrás mesmo, na madrugada, em barzinho, tocando na base do couvert, às vezes dá vinte reais, trinta reais, não tem o certo. Para tocar o que a gente toca, que é o choro, uma música que não é sub-música, como diz o Sivuca, tem que ralar muito. Gravação, você não tem mais muito, hoje. Teclado substitui vários instrumentos. Casa noturna, você hoje não tem cachê fixo, se quiser tocar, vai ganhar na base do couvert. Eu já fui tocar no Mistura Fina há muito tempo, cheguei lá, choveu, não deu nada. Aí não dá. Antigamente era melhor, porque você tinha as gravadoras, onde se gravava mesmo, tinha as emissoras de rádio, televisão, tinha programas. Eu mesmo fiz muito programa na Globo, com o Vanucci, trabalhei um ano no Alerta Geral com a Alcione, o meu conjunto. Na Globo. Pulava à beça na Embratur, era complicado conciliar, e eu passei um ano assim.

NV - Então seu filho também vai seguir uma outra carreira?
DR - É, eles está estudando administração de empresas, eu acho que não deve viver de música. Às vezes dá, é possível, mas é complicado, não é fácil não. Eu não estou muito nesse meio, estou um pouco afastado, faço um showzinho aqui quando me chamam, toco ali, mas eu acho meio complicado, sim.

NV - O que você tem ouvido e gostado dos novos grupos de choro e instrumentais?
DR - Tem muita gente nova tocando muito bem, mas infelizmente é o que eu digo: não tem lugar pra tocar. Antigamente poucos acompanhadores liam música, quem lia eram os solistas, os acompanhadores tinham muita prática e tocavam de ouvido, e liam alguma coisa de cifra. Hoje em dia o pessoal toca por música, estuda, lê, coisa e tal. E muitos tocam choro muito bem. Pena que ficam tocando em barzinhos para ganhar vinte, trinta reais. Ou seja, não é reconhecido o esforço deles, de estudar. Ficam tocando na noite, porque não tem uma gravadora para apoiar, ou então ficam fazendo disco independente, como eu faço, porque as multinacionais não querem saber nada disso. Tem uns privilegiados que conseguem uma gravação aqui, outra ali. Mas no geral acho que falta muita coisa pro negócio melhorar, pra chegar àquela época de rádio, de televisão, dos programas musicais, das gravadoras que chamavam muito... Mas há muitos bons novos instrumentistas, no Rio, em São Paulo, em Brasília, e não só bandolim, mas também cavaquinho, violão, sete cordas. Pena que eles não têm muito lugar para tocar. Como antigamente, que tinha as rádios, cada rádio tinha seu conjunto regional, suas orquestras, as casas noturnas tinham conjuntos tocando, não para ganhar couvert, mas com um cachê fixo, chova ou faça sol, como Copacabana nas décadas de 50 e 60, cada boate tinha um conjunto fixo tocando, as orquestras de Cipó, Tabajara, Carioca, cada orquestra dessas empregava quantos músicos?

NV - Há os conjuntos que acompanham cantores, como você foi do grupo da Clara Nunes.
DR - Mas são só os cantores de nome, que você pode enumerar, Zeca Pagodinho, Emilio Santiago, Martinho da Vila... São poucos os que têm conjuntos fixos.

NV - E como foi essa sua experiência com a Clara Nunes, você chegou a viajar com ela?
DR - Não, não viajei. Fiz só a temporada de inauguração do Teatro Clara Nunes, durante sete, oito meses. Gravei também o Fantástico e participei de um disco, só.

NV - Teve outras experiências acompanhando cantores?
DR - Sim. Paulinho da Viola, no show Sarau, dois meses no Rio e depois viajou. Eu só fui a São Paulo, mas o show foi a Porto Alegre, Santa Catarina, mas esses eu não fui porque não pude, o Ronaldo é que foi. Nós ficamos dois meses no Teatro da Lagoa, o maior sucesso, mas depois o Paulinho não quis continuar, porque estava cansado. Gravei com outros cantores, mas gravei pouco, porque eu não podia sair do trabalho.

NV - Fale um pouco mais sobre a importância do show Sarau na década de 70.
DR - O conjunto Época de Ouro não estava fazendo muito show, fazia um aqui, outro ali, mas não estava muito em evidência. Aí o Paulinho chamou a gente para fazer um show montado, o Sarau, que tinha ainda o Elton Medeiros, Sérgio Cabral, Copinha, Cristóvão Bastos, Dininho e mais o Época de Ouro. Ou seja, era o conjunto do Paulinho e mais o Época de Ouro, e ainda o Sérgio Cabral, que contava histórias da música popular brasileira. Esse show era um sucesso, era de quarta a domingo, e toda noite eu bisava com Noites Cariocas e o Jonas bisava com Carolina. O Sérgio Cabral nem entrava porque sabia que teria esse bis. Dali pra frente pintou mais gravação para mim individualmente, na EMI, e para o Época de Ouro, que foi chamado para fazer um disco na Continental. Aí começou a pintar mais coisa, gravação, show.

NV - Mudando de assunto: Por freqüentar tanto a casa do Jacob, você certamente conhecia o seu famoso arquivo. O que acha dessa iniciativa de criação do Instituto Jacob do Bandolim [www.jacobdobandolim.com.br], que pretende recuperar esse arquivo que atualmente se encontra no Museu da Imagem e do Som?
DR - Eu apóio, e inclusive me colocaram como vice-presidente, apesar de eu dizer que não tenho tempo, por causa da ADAF. Eu não tenho tempo, mas gostaria de poder me dedicar mais, pesquisar, fazer as coisas, como eu fazia muito antigamente, mas parece que conforme vai ficando velho a gente vai se acomodado, e trabalhando em outra coisa... Mas daqui a dois anos eu vou me dedicar exclusivamente à música.

NV - É mesmo?
DR - Se Deus quiser. Mas estou lá no Instituto, e acho que, infelizmente, o Estado nunca tem dinheiro para nada. Esses anos todos, o arquivo do Jacob ficou abandonado, infelizmente. E não só o arquivo da Jacob, mas outros arquivos que estão lá no MIS. Porque não tem dinheiro para nada, nunca tem. Entra governo, sai governo, é a mesma coisa, eu não sei que negócio é esse. E o arquivo ficou lá abandonado esses anos todos.

NV - O Jacob se dedicava muito ao arquivo?
DR - Ah, ele tinha um cuidado incrível com aquele arquivo. Então com esse Instituto estão fazendo um trabalho muito importante, porque aquelas fitas estão se desmanchando. Se não fizerem um trabalho de recuperação aquilo vai acabar. E ali tem coisas valiosíssimas, não para mim, que já conheço, mas para os jovens que estão começando agora, gente que ainda tem uma estrada longa pela frente, estão começando na música, no choro, pesquisando. O poder público não tem a sensibilidade de pegar uma coisa dessas e recuperar. É um absurdo. Então essa lembrança do Sérgio Prata, do Hermínio, da Helena, do Pedro Aragão, é importantíssima para a nossa cultura da música popular brasileira. Batalhar para recuperar não só o arquivo do Jacob mas também os arquivos da Rádio Nacional, do Almirante, da Elizeth, parece que estão todos lá. Você vê: o Jacob faleceu em 69, esse arquivo foi comprado pela Souza Cruz, que doou para o Museu da Imagem e do Som. Eu fui uma vez lá fazer uma pesquisa, as fitas estavam se desmanchando, não se podia nem ouvir. Eu mandei a menina de lá parar na hora, porque ia arrebentar a qualquer minuto. São fitas de rolo, porque o Jacob gravava tudo, as reuniões e saraus na casa dele. E as partituras? Essas eu nem fui ver, porque as partituras estão na Praça XV e as fitas estão na Lapa. O Jacob tinha trinta e tantos cadernos de chorões. Alguns estão se desmanchando. Bem, eu tenho músicas aqui de mais de 50 anos que não estão se desmanchando. Tem música do Candinho aqui, com ponto do Candinho, músicas da década de 30, e está aí, o papel está amarelo mas não está se desmanchando. Agora, o meu filho foi lá no MIS com o Sérgio Prata e disse que tem cadernos lá que as folhas estão se desmanchando. Isso não pode continuar. Eu tenho aqui coisas pequenas, que nem se comparam ao valor do que eles têm lá, e não estão se desmanchando como lá. Enfim, é lamentável. Eu que freqüentei aquele arquivo na casa do Jacob, que vi o carinho que ele tinha com o arquivo, durante anos e anos, ele catalogava tudo, dona Adília ajudava muito, tinha microfilmagens que parece que hoje não existem mais...

NV - E seus projetos futuros?
DR - Eu pretendo só gravar daqui a dois anos, quando eu vou me dedicar exclusivamente à música. Daqui a dois anos eu paro com a ADAF, termina o meu mandato, aí vou poder estudar mais música, bandolim... Não vou ter outra coisa pra fazer. Estarei caminhando para os 61 anos, já estou com a minha vida resolvida, sem problemas financeiros, graças a Deus, e poderei me dedicar só à música.

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