Confundem arte com ciência...

Sérgio Cabral participara de um debate de TV criticando a posição de alguns bossanovistas de achar que tudo que tinha vindo antes da Bossa Nova estava ultrapassado.

Pouco tempo depois recebeu uma carta de Jacob, não só manifestando a sua solidariedade à posição do jornalista como também expondo seu ponto de vista.
A seguir um trecho da carta.

"Confundem arte com ciência, como se àquela fosse necessário o progresso que a esta é imprescindível. Não estranham, imbuídos de tanta má-fé, a eternidade da obra daqueles que, em todas as artes, honestos e inspirados morreram na miséria, mas abraçados aos seus ideais, às suas paixões, às suas normas artísticas. Fazem poesia com régua ou esquadro e é o que entendem de métrica. Na ânsia de renovar ou morrer, tudo destroem, arrasam o que estava certo, eliminam, sem qualquer sentimento nativo que não o da macaquice, as mais autênticas inflexões da nossa música, reflexo de um povo simples. E o que é mais triste: sente-se que, se quisessem, poderiam compor boas obras. Suas composições jazzísticas são estranhas ao sabor popular, alimentadas, em grande parte, por músicos fadados ao ostracismo e que precisavam, para não perecer, de uma oxigenação. Quer ver? Quando ouvi pela primeira vez Chega de Saudade e soube que era do Jobim, senti que havia algo errado. Graças a Lúcio Rangel, com ele travei conhecimento do Bar Zepelin e, inopinadamente, perguntei-lhe como era, realmente, aquele samba. Jobim, surpreendido, respondeu: "Como é que você sabe que as 17 gravações estão todas erradas?" E presenteou-me com a versão do samba, tal afirmando na dedicatória, sob a melodia escrita num retalho de papel de música e que, com carinho, guardo no meu arquivo. Eis aí, meu caro, os 17 (dezessete, veja bem) não conseguiram reproduzir, nem deturpar - isso porque não entenderam - aquele lindo samba que, não fora aquela malfadada "batida" de violão com que o acompanham e que tanto entusiasma José Mauro, seria, por certo, atribuível a J. Cascata ou a Ataulfo Alves. E Lúcio, quando o ouve como é, por um bandolim, dois violões e um cavaco, sente incríveis prazeres. É simples obter tal efeito: basta acompanhá-lo à brasileira."

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