Análise de "Noites cariocas"

por Bruno de Souza Costa Pedroso

A primeira seção de "Noites Cariocas" é claramente dividida, conforme descrito nesse trabalho, em dois períodos, que por sua vez se dividem em duas sentenças, que por sua vez se dividem em duas frases. Essa estrutura pode ser assim representada:

1

Abaixo, são apresentadas cada uma das sentenças, com as células melódicas destacadas e numeradas:

2
3
4

Como se percebe, foi omitida a primeira sentença do segundo período, uma vez que é idêntica à primeira sentença do primeiro período.

A análise das 17 células destacadas é apresentada abaixo:

5
Nota de relaxamento: CD, sétima do acorde de D7M; *

6
Nota de relaxamento: B, sétima do acorde de Ddim; ( o arpejo é sobre o D da célula 1 )

7
Nota de relaxamento: FG, terça do acorde de D;

8
Nota de relaxamento: G, terça do acorde de Em;

9
Nota de relaxamento: CD, sexta do acorde Em6; *

10
Nota de relaxamento: B, quinta do acorde de Em;

11
Nota de relaxamento: D, quinta do acorde de G;

12
Nota de relaxamento: F, setima do acorde de G#dim;

13
Nota de relaxamento: B, sexta do acorde de D6; *

14
Nota de relaxamento: DE, terça do acorde de B7;

15
Nota de relaxamento: FG, nona do acrode de Em9; *

16
Nota de relaxamento: CD, terça do acorde de A7;

17
Nota de relaxamento: D, tônica do acorde de D;

As células 3, 4 e 10 são idênticas, assim como as 5, 8 e 9. Por isso apenas a 3 e a 5 foram analisadas.

Observações

1) Como a nota de relaxamento de cada célula é a última, todas as notas das células, com excessão desta, fazem parte da tensão da célula. Como se pode verificar pela análise feita, todas as células possuem uma progressão elaborando a nota de relaxamento em sua tensão (ou levando a um harpejo do acorde, que termina na nota de relaxamento).

2) Outro aspecto que merece atenção é o fato de que todas as células da primeira seção apresentam o mesmo padrão rítmico. Esse padrão rítmico possui duas peculiaridades:

* A última nota, apesar de estar em uma posição métrica fraca, é sem dúvida a nota mais destacada do padrão. O que ocorre é que a nota em questão é ouvida como uma antecipação da batida forte subsequente, o que é bastante comum na maioria dos ritmos populares brasileiros, sendo conhecido como síncope.

* A configuração relativa das importâncias dentro do padrão rítmico é equivalente a uma configuração métrica ternária, como mostra a figura:

18

Isso se reflete no fato de que a melodia cabe perfeitamente sobre um compasso ternário. O padrão rítmico construido por Jacob do Bandolim encaixa um padrão de 6 notas sobre um padrão de 8 batidas, ou seja um padrão ternário sobre um binário - outra característica marcante bastante presente na música popular brasileira.

3) Em algumas células, a nota de relaxamento não pertence à triade do acorde, consistindo assim em um acorde mais elaborado. Essas células são aquelas marcadas com (*) na lista acima.

O CD que termina a célula 1 se repete na célula 6, consistindo em uma "dissonância" característica da música, situada na primeira célula de cada sentença.

As células 11 a 17 se dividem por formarem duas progressões alternadas em um nível mais alto. Todas elas possuem a mesma estrutura de elaboração: um harpejo concatenado a uma progressão. As progressões na segunda metade das células 11, 13, 15 e 17 formam uma progressão descendente em um nível mais alto, como destacado na figura:

19

As "dissonâncias" existentes nas células 13 e 15, portanto, se justificam pela forma da progressão constituída no nível de sentença. Mesmo assim, as dissonâncias encontradas (sexta, nona e sétima maiores) são tipicamente consideradas dissonâncias fracas, muito comuns na MPB.

4) Outros padrões podem ser destacados em níveis mais altos, como por exemplo o formado pelas notas de relaxamento das células 3, 4, 5, contituindo o padrão FG - FG - G; e das células 8, 9, 10, que realizam o movimento contrário: G - G - FG.

Entretanto, a análise detalhada da relação entre as células, e dos níveis mais altos de elaboração - que relacionam os acordes - não consiste o intuito dessa etapa do trabalho. Serão destacadas apenas aqueles aspectos considerados pertinentes ao nível aqui discutido.

Bruno de Souza Costa Pedroso é brasiliense, Bacharel em Ciência da Computação pela universidade de Brasília, (onde desenvolveu este trabalho) e músico.
A íntegra do projeto envolvendo, entre outros, a análise de outros choros, está disponível aqui.
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